Quando um jovem roteirista fica desiludido sobre uma negativa, ele descobre o que é necessário para ser feliz.
Referente à Março/2007
Capítulo XVIII
Como Conseguir O Que Se Quer
Por Ana Constantine
Gothan City - 01:00 AM
Brian, Frank e Neil haviam conseguido a pior mesa do bar. Exatamente aquela perto do banheiro, onde o dono do bar costuma colocar os engradados vazios, no canto. Brian é um pobre roteirista de quadrinhos e os outros dois são seus valorosos amigos, que o estão tentando convencer a esquecer essa profissão ingrata.
O barulho quase afogava as palavras de Frank:
- Com essa são quantas, Brian?
- Seis. – diz Brian desanimado.
- Então, seis editoras e nada! Olha, seu desenhista é bom, talvez o problema seja o teor das estórias.
- Ou seja, comigo!
- Não, amigo – interrompe Neil – sua narrativa é boa, mas quem diabos quer ler estórias sobre o dia-a-dia realístico quando temos o Super-Homem no jornal?
- Por isso mesmo, Neil. Nós temos a Liga da Justiça, que mais fantasia eu poderia desenvolver? Eles são heróis, com máscara e tudo! Eu não acho que o mundo precise de mais estórias assim!
- A sexta, Brian. A sexta! – grita Frank – você pode achar que sabe o que o mundo quer ou precise, mas não é teimosia? Só você está certo?
- Não é isso. Não é teimosia, é convicção. Ou vocês acham que mesmo a vida dos heróis é fácil? Olha o Batman.
- O Batman é uma lenda, só isso. – ressalta Neil.
- Não é – sussurra Frank – eu vi!
- Viu um cara que se veste de morcego?
- É, Neil! E ele voa, de verdade!
Brian murmura para que ninguém ouça.
- Viram? É disso que eu estou falando! Temos tantos heróis que nem nos importamos quais são verdadeiros, não pensamos em suas limitações! Eu busco um pouco de realidade. Esse mundo está mais para invenção infantil, que para um mundo real!
- Mas, o que você queria do mundo “real”, caro Brian?
- Ora, Frank. Você não acha que o super-homem sofre de amor também? Não existe ninguém infalível. Olha o Lanterna Verde da Sociedade da Justiça, até uma filha verde o cara tem.
- O que a filha verde dele tem a ver? – questiona Neil.
- Sei lá, acho que eu sofreria se tivesse uma filha verde! Mas a questão não é essa! Os heróis não são deuses, eles sofrem também!
Os dois amigos ficaram olhando para Brian, imaginando se o super-homem sofria, e ambos chegaram a conclusão que não. Por isso fizeram um som parecido com um estalo e tomaram mais um gole de cerveja.
- Eu queria falar sobre um mundo sem uma liga da justiça. Vocês não se sentem vigiados?
- Você está paranóico, Brian. Quem estaria nos vigiando?
- Neil, quantos super-humanos tem visão de raio-x? E se um deles estivesse passando agora?
Frank ergueu as sobrancelhas pensando na possibilidade, mas só conseguia pensar nele com esse poder e a Mulher-Maravilha do lado.
- Você anda viajando demais, Brian. Olha, se cuida tá? Eu tenho que ir.
Neil se foi, deixando seus amigos falando sobre castelos no ar.
Depois das três da manhã, Brian estava quase concordando em se tornar contador.
- Brian, nós temos uma economia estável, se você se dedicasse, com sua criatividade, as coisas poderiam dar certo. De repente, você até poderia arranjar uma namorada.
- Mas, eu não me dou bem com números... peraí, quem disse que eu quero uma namorada?
Frank olhou de viés para o amigo.
- Faz quanto tempo que você não fica com ninguém?
- O que minha vida pessoal tem a ver com isso?
- Nada, só tô falando. Você viaja, cara.
Foi quando Brian teve um insight.
- Claro! A gente não existe!
- Putz, agora você foi longe!
- Não! Pensa bem, pensa no mundo, em tudo. Com tanta batalha e a economia é estável? Pensa bem!
Brian desatou a rir.
- Cara, a gente precisa ir embora!
Depois que Frank deixou Brian em casa, ele se esqueceu completamente desta conversa. Mas Brian não.
O jovem roteirista sentou-se na cama indignado.
- Eu não quero viver nesse mundo de mentira.
Então, deitou-se e dormiu
Em seus sonhos, Brian caminhava sobre águas e observava o fundo do rio com curiosidade. Quando um homem alto, pálido, de cabelos brancos e olhos profundos tocou seu ombro. O senhor do sonhar.
- Olá, Brian.
- Eu te conheço, não é mesmo?
- Claro que sim, você me visita sempre.
- Como é seu nome?
- Daniel.
- Quem é você?
- Eu não sou ninguém importante, Brian. Esse sonho é sobre você.
- Isso é um sonho, então! Não é real.
Daniel olhou fixamente para os olhos daquele sonhador.
- O que é a realidade?
Brian tinha se questionado sobre a realidade havia pouco tempo, e não sabia a resposta.
- Olhe em volta, sonhador. As coisas que você vê são reais? As coisas que você toca o são? Você não vê, sente as coisas em seus sonhos? Você não pensa em seus sonhos? Seus pensamentos moldam o mundo, Brian!
- Então... Eu posso viver aqui para sempre?
- Por quê você gostaria de viver aqui? É possível que venha, mas você não gosta da sua realidade?
Brian tentou lembrar da sua vida, e ele achou que sua existência no mundo havia passado em branco. O jovem roteirista sentiu lágrimas quentes subirem aos seus olhos.
- Eu não sou ninguém na minha realidade. Eu queria fazer a diferença, eu queria ter poderes. Eu queria ser perfeito!
Daniel abraçou o menino à sua frente e sentiu sua dor.
- Venha, eu quero te mostrar algo.
A superfície do rio em que se apoiavam cedeu, e aos poucos os dois mergulharam nos sonhos do mundo de Brian. Os dois podiam ver os sonhos passando, e quando Daniel viu o sonho que queria ele se agarrou em uma árvore, e eles se viram em uma fazenda. Nela um homem alto, forte, de cabelos pretos e olhos azuis estava trabalhando a terra com as mãos. Depois de um tempo, uma mulher sai da casa sem luxos, com um menino de um ano nos braços.
Brian pensou que aquele sonho era bobo. Por que alguém teria dificuldade em realizar algo assim? Uma vida calma e simples.Então o roteirista olhou bem para o homem, principalmente para seus profundos olhos azuis.
- Daniel, esse é quem eu penso que é?
O senhor do sonhar fez um sinal afirmativo com a cabeça.
Brian ficou confuso. Como alguém como ele poderia querer algo assim?
- Ele sempre sonha com esse lugar – disse Daniel – não com poderes.
- Mas eu pensei...
- Que poderes poderiam resolver os seus problemas?
- Sim! Mas mais que isso, pensei que os poderes poderiam trazer felicidade!
- A felicidade é interna, Brian! Não depende de mais nada além de você.
- Daniel, eu preciso te fazer uma pergunta. Existem outros mundos para se viver?
Daniel olhou bem para Brian, nenhum sonhador tinha sido tão direto antes. As pessoas sonhavam com outros mundos frequentemente, porém nenhum o havia perguntado dessa forma. Talvez com Mopheus, mas com ele era a primeira vez.
- Tudo é possível no sonhar.
- Você me mostra? Eu quero ver esse outro mundo.
- Se você quer mesmo, não precisa de mim.
Brian estava novamente sozinho e vagando pelas imagens desconexas dos sonhos de um mundo sem poderes. Ele viu guerras, como em seu mundo. Viu dor, como em seu mundo. Mas ele também viu alegria e esperança, como em seu mundo.
Porém, em algum relance Brian viu a si mesmo. Ele parou e ficou observando o sonho de um rapaz, que sonhava viver a vida dele, como em um espelho.
“Aquele sou eu?”.
O jovem roteirista olhou o seu outro eu que estava dormindo, e ao seu lado estava uma bela moça. Aquela, dos seus sonhos.
Ele viu sua casa, e nas estantes pôde ver vários quadrinhos escritos por ele.
Aquele era exatamente o sonho dele. Então, Brian gritou:
- Daniel, como eu faço para ser ele?
E uma voz ecoou, não em todo o sonhar, mas na cabeça de Brian.
- Então, acorde.
Brian acordou assustado, olhou para sua esposa e suspirou. Ficou feliz por ser quem era, e adormeceu novamente.