Um assassino mortal lutando pela Rússia durante a Guerra Fria. Dono de um passado obscuro, ele pode ter sido um grande herói americano no passado... ou seria apenas outra memória falsa? O Soldado Invernal chega na Quadrim!
Soldado Invernal em:
Lembranças Frias
Por: Lúcio Flávio
- Tem certeza que ele está pronto, camarada Kury?
- Não tem como sabermos sem um teste, camarada Storks.
Por que falavam tão alto? As vozes martelavam em seu cérebro, ressonavam em seus tímpanos.
Também havia o frio, onde ele estava deitado era tão gelado que parecia botar fogo em suas costas. Ele estava pelado? Era o que parecia.
Sentiu mãos grandes e vigorosas agarrarem seus ombros. Nascer era assim tão brutal? Ele queria retornar para o seu mundo anterior e escuro, quente e muito confortável.
Ele foi sacudido e forçado e abrir os olhos, a claridade pareceu explodir sua retina e ele os fechou por reflexo. Encolheu-se em posição fetal, na vã tentativa de se proteger.
- Acorde, soldado. – a voz enérgica pareceu colocar seus pensamentos em ordem. Ele abriu os olhos com mais segurança e se viu encarando dois homens de aparência sábia.
Estava sentado em uma maca simples, no interior do que parecia ser um laboratório. O homem da direita anotava efusivamente alguns dados em uma prancheta. O da esquerda parecia mais interessado nele.
- Está me escutando?
- Sim.
- Está me vendo?
- Sim.
- Consegue coordenar seus pensamentos de forma tranqüila?
- Sim.
- Consegue mover seu braço esquerdo?
Conseguiu por reflexo e deu uma boa olhada em seu braço. Mas o que viu foi um choque.
Seu braço não era como o resto de seu corpo, ele era mecânico e brilhava intensamente sob o reflexo das luzes.
- Meu Deus! Quem...?
- Tudo a seu tempo, camarada. – respondeu o cientista da direita, se aproximando com algumas folhas nas mãos. – Poderia realizar um pequeno teste agora? Presumo que sim.
Sem querer resposta, ele começou a apresentar uma grande quantidade de fotografias.
A primeira tratava-se de uma bandeira de três cores, a bandeira da Rússia, e essa visão lhe proporcionou uma excelente sensação de bem-estar.
- Quais são as sensações?
- Amor e devoção.
Ambos os cientistas sorriram orgulhosos. O teste continuou calmamente. A imagem de um monumento de uma mulher segurando uma tocha e um livro, a foto de um homem, uma bandeira estrelada. E em todas as respostas agradaram ambos os cientistas.
Até que lhe fora apresentado a imagem de um escudo com uma estrela no centro.
Aquela imagem travou seu cérebro, as emoções eram um turbilhão, confusas.
- Então? O que me diz?
Um sentimento de ódio acabou emergindo da confusão.
- Eu quero destruir esse escudo.
Lágrimas de felicidade rolavam pelas bochechas barbadas dos homens à sua frente. Ele pouco entendia.
- Será que vocês poderiam me dizer quem eu sou?
- Você, camarada, é o Soldado Invernal. Criado para servir à nossa pátria-mãe. Rússia.
Logo ele foi aprendendo mais sobre o mundo ao seu redor. Suas primeiras missões eram coisas de criança. Apagar espiões americanos em território comunista.
Agentes fantasmas cuja falta nunca seria sentida.
- Você é o melhor, Soldado Invernal. – garantiu-lhe o diretor da KGB na única vez em que se viram. Foi quando tudo começou a mudar.
- Então por que preciso ficar preso?
O diretor encarou-o, a expressão repleta de solidariedade.
- Os seus criadores ainda acham que você não é 100% confiável.
O Soldado Invernal se remexeu em seu leito. Estava amarrado pelos tornozelos e barriga, os pulsos livres.
- Por quê? O que fiz desde que nasci foram simplesmente coisas que vocês me mandaram fazer.
- Mas entenda que tendo em vista seu passado... – o diretor se calou instantaneamente, percebendo que dissera a coisa errada e se retirou da pequena sala sem dizer mais nada.
Essa foi a primeira vez que o Soldado Invernal ouviu falar que ele tinha passado.
- Por que vocês nunca me contaram? Quer dizer então que eu existia antes disso? Por que eu não me lembro? Eu exijo saber agora, Kury!
- Cale-se, menino tonto.
Eles estavam no laboratório onde tudo começou, era a primeira vez que ele via Kury tão aborrecido.
- Francamente, o próprio diretor da KGB? Por que ninguém informou ao homem? Cacete!
Ele ajustava algo que parecia uma coroa de ferro na cabeça do Soldado Invernal.
- Vocês vão me apagar de novo, não é? – perguntou ele, estava tremendo de medo.
Kury suspirou. Ele gostava do garoto como se fosse um filho seu. Ter que fazer aquilo seria doloroso.
- Escuta aqui, filho. – ele baixou a voz e encarou o outro. – Isso é para o seu bem. Se você continuar questionando certas coisas nós seremos obrigados a te substituir. Em poucos segundos tudo vai voltar ao normal.
Mas não voltou. As sucessivas sessões de apagamento de memória deturparam a psique do Soldado Invernal de tal modo que ele havia se tornado uma máquina sem emoções e vontades.
Sua vida se resumia a matar quem deveria ser morto e permanecer enclausurado em seu quarto-cela. Sem jamais se perguntar a razão de tudo. Até que o cientista bonzinho resolveu reaparecer.
Ele havia envelhecido muito desde a última vez que se viram. O Soldado Invernal nem se lembrava mais o nome dele.
- Eu só vim aqui porque talvez não me reste muito tempo.
O Soldado nada lhe disse.
- Estão detonando os antigos caras como eu. Encontraram os restos mortais do Storsk em um lixão. Sou o próximo.
- Você veio aqui me designar alguma missão, camarada?
- Não.
- Então presumo que deva voltar às suas funções.
O outro sorriu. Era um sorriso amargo e derrotado.
- Você já está falando igual aos outros. – houve uma pequena pausa desconfortável. – Me lembro ainda da época em que você queria saber mais sobre você do que sobre quem você ia matar.
O Soldado Invernal piscou muitas vezes, tentava enxergar o velho com mais clareza. As repetidas lavagens cerebrais faziam com que ele não conseguisse mais discernir sonhos de memórias, tudo se resumia a borrões e fragmentos. Nunca se incomodou com isso, era mais fácil cumprir seu dever sem lembrar de antigos pecados.
- A Guerra Fria praticamente acabou. Nós perdemos. Dizem até que vão destruir o muro de Berlim em breve, consegue imaginar algo assim?
- Não consigo compreender o que isto tem a ver com sua presença aqui.
- Acontece que agentes como você serão eliminados também, camarada. Mas eu ainda posso e quero lhe salvar.
- E como será isso?
- Eles... quer dizer... nós, trancamos suas memórias juntamente com um código. Uma chave. Nossa tecnologia não permitia coisa mais sofisticada. Enfim, quando você escutar, falar ou ler esta palavra-chave suas memórias retornarão intactas e cristalinas.
Aquilo seria possível? Ele deixaria de ser somente um assassino e voltaria a ser um homem, comum como todos os outros? Um velho desejo ardeu em sua mente, o desejo de lembrar do passado.
- Ainda não.
- O que disse, filho?
- Eles vão saber que eu lembrei tudo. Vão me pegar e me apagar definitivamente.
O homem o encarou com surpresa. Na certa, vendo que um pouco da personalidade original do Soldado retornava.
- Anote para mim, camarada. Anote essa chave.
Amaldiçoando-se por já não ter trazido folha e caneta, o velho caminhou de volta ao laboratório e retornou com papel e caneta na mão.
- Esses tolos comunistas não aprendem! Eu mesmo aconselhei-os a pôr câmeras de segurança nesta cela desde o incidente com o antigo diretor da KGB e eles não fizeram nada. Nem ao menos atualizaram os guardas, entrei aqui com meu antigo crachá! – o velho resmungava enquanto escrevia e preparava o envelope.
O Soldado Invernal ameaçou um sorriso. O primeiro há muito tempo.
Pegou a caneta da mão do outro e escreveu em sua própria caligrafia infantil e desengonçada: “Para ler quando for traído”. Amaldiçoou a tira de couro prendendo sua barriga quando teve que pedir ao velho para guardar o envelope em sua cueca. No dia seguinte ele iria escondê-lo em um dos bolsos secretos do uniforme.
Os dois sorriram, constrangidos.
- Obrigado.... Kury. Acho que é Kury.
O velho parecia emocionado.
- É bom ver que você ainda resiste, filho, quando descobrir tudo você vai entender o porquê de tanta nobreza, tanta coragem. Você é um dos mocinhos, nunca se esqueça disso.
No dia seguinte Kury foi assassinado no caminho para comprar pão.
- Você compreendeu todos os parâmetros da próxima missão, camarada Invernal?
O Soldado reabriu os olhos, retornava de seu mundo conturbado de sonhos. Ou seriam memórias? O tal de Kury realmente existiu?
- Perdão, comandante. Eu cochilei.
Os últimos meses haviam sido muito cansativos para ele, mal havia tempo para respirar entre uma missão e outra.
O Soldado Invernal tinha nojo do que havia se tornado. Com o fim da URSS e a queda do muro de Berlim, a Guerra Fria havia chegado ao fim. O comunismo era uma piada, a Rússia era uma piada. Vencidos por dentro de sua temida cortina de ferro. Agora só restava a ele se juntar ao grupo terrorista de extrema esquerda que ainda lutava pela “expurgação do terrível mal capitalista que infectou e vai matar nosso planeta”. Um terrorista.
O pior é que ele fora “emprestado” pelo governo russo sem a menor cerimônia, ou pelo menos ele achava isto. As lembranças eram nebulosas.
- Graças às informações de um grupo neo-nazista, descobrimos que a identidade civil do Capitão América vai se encontrar com um agente britânico do qual temos poucas informações, mas sabemos que é alguém muito importante por lá. Só sabemos que ele é um 00, permissão para matar.
A atmosfera de excitação assassina pareceu adensar-se dentro da sala.
- Resolvemos designar para essa missão os experientes agentes da KGB... Soldado Invernal e Agente 21. O transporte chega em breve. Dispensados.
O Soldado descobriu que o momento fúnebre que os seus sonhos anunciavam ia se tornar realidade.
Ele havia se tornado dispensável.
Por que outro motivo iriam colocar ele e outro agente mal-qualificado da KGB nessa missão suicida? Talvez essa história de Capitão América e agente britânico fosse só um circo e ele seria morto ali mesmo, naquele avião que ocupava agora. Dez horas depois da última reunião.
Aprumou-se contra a parede da área de carga da aeronave e sentiu algo incomodar-lhe em seu antigo uniforme.
Não ficou tentado a descobrir o que era. Aquele uniforme tinha tantos bolsos secretos... era provavelmente só um mapa de missões antigas.
- Tem fogo? – o Agente 21 lhe perguntou. Estavam sentados um de frente para o outro. Ele segurava um cigarro com a mão esquerda. Ele tremia.
- Não.
O Soldado Invernal tentava dizer a si mesmo que era tudo coisa de sua mente. Não havia plano mirabolante para matá-lo.
Mas ele tinha certeza que existia.
Por isso puxou seu rifle mais para perto. Sentiu novamente algo lhe incomodar nas costas.
“Mas que merda é essa?”
Logo já havia vasculhado o bolso em questão e encontrado um envelope amassado e meio rasgado em alguns pontos. Conseguiu ler em sua própria caligrafia infantil:
“Para ler quando for traído”.
Era um sinal! Só podia ser! Alguma estranha coincidência lhe dava as respostas de suas perguntas mudas!
- O que você tem aí, Soldado?
Suas mãos ávidas rasgaram o envelope antes que o outro agente pudesse fazer alguma coisa. Lá dentro havia um único papelzinho com uma única palavra escrita:
“Bucky”. E o seu mundo virou do avesso.
Era para ser somente uma missão de rotina. Outro plano mirabolante dos belicosos cientistas nazistas.
- Interceptar um avião com material radioativo? Steve! Quem eles pensam que somos? O Barão Vermelho?
- Esse é um material muito perigoso, Bucky. Não é hora de suas piadinhas. O avião está entrando em território polar, dizem que é capaz de criar um holocausto ambiental.
- Chega de holocaustos para mim. Já tive guerra e batalha pelo resto da vida, quando acabar por aqui eu quero curtir a juventude!
Steve riu enquanto acabava de colocar a máscara. Logo seu semblante ficou sério, ele era o Capitão América.
O símbolo máximo da liberdade.
O fardo não lhe permitia dar risadas.
- Estamos prontos. – ele avisou para o piloto.
- Então, qual é o plano?
- Pulamos no avião. Tiramos o piloto lá de dentro. Aterrissamos o avião. Voltamos para casa.
Típico deles, interceptar um avião militar com o tanque cheio de uma arma química poderosa. Em pleno vôo.
Bucky estava preparado. Antes de Steve Rogers entrar em sua vida ele era apenas um órfão vivendo de favor em um quartel. Em menos de uma década ele já vivera mais emoções e horrores que qualquer um de sua idade.
Viu mágicos imbecis arrancarem o cérebro de um homem para transportá-lo magicamente a outro corpo. Viu alienígenas, mancomunados com nazistas, devorarem criancinhas. Viu as valas cheias de judeus, homossexuais, deficientes e negros mortos em campos de concentração.
E agora ele estava quase deixando isso tudo para trás. Indo embora.
- Prepare-se, Bucky. É crucial acertarmos o cálculo do pulo.
Ambos se lançaram pela porta aberta do avião. Bucky sentiu o gélido ar polar queimar sua pele enquanto caía na direção do outro avião.
Tudo foi muito rápido.
O Capitão quebrou o vidro da cabine do piloto e lá entrou. Bucky foi logo em seguida.
- Prepare-se, chucrute. Nós vamos...
- James! Salte! Agora! Eu vi uma bomba no painel!
Era um avião pilotado remotamente, era uma armadilha. A bomba marcava menos de cinco segundos para a explosão. Cálculo perfeito.
O Capitão América pulou desesperado para escapar, gritando para que ele o seguisse.
Faltavam dois segundos.
Um.
Dor. Escuridão.
Muita dor! Sentia seu corpo desintegrado voar pelos ares e se esborrachar na água congelante. Seria esse o fim?
- Que droga, camarada, você apagou legal.
O rosto rosado era tudo que ele via.
Suas memórias fluíam sem nenhum empecilho. Ele era o Bucky! Não o maldito Soldado Invernal.
E ele odiava os russos.
- Você tá bem? O que quer dizer isso? – o agente perguntou, balançava o bilhete na frente dos olhos do outro. – É inglês? O que diabos é “Bucky”?
- É meu nome, comuna!
O soco a seguir arrancou vários dentes do Agente 21. Bucky ergueu-se, sentindo-se americano de novo. Sentindo-se livre.
Chutou as costelas dele de raiva, sentindo que várias se partiam. Afundou seu pé na cara, deixando-o inconsciente.
Foi então que sentiu o solavanco da aterrissagem abrupta do avião. Eles não podiam já ter chegado, podiam?
Pegou seu rifle como garantia e saiu do compartimento de carga.
- Mein Gott! Você é exatamente como eu me lembrava,
derr Bucky.
Ele encarava a odiosa face do Caveira Vermelha.
Nick Fury não tinha muitas expectativas para aquele dia particular. Como diretor da Shield tudo podia acontecer. E ele estava preparado para tudo.
- Comandante Fury?
- Pode falar, agente, estou na escuta.
- Lembra daquela missão contra o Caveira Vermelha que o senhor não quis envolver os meta-humanos?
- Obviamente sim.
- O pessoal acaba de voltar e eles trouxeram umas pessoas.
- Que merda! Eu disse pra eliminarem todo mundo. Sem prisioneiros. Será que vocês não fazem nada direito?
- Mas o senhor vai querer ver isso, comandante.
Amaldiçoando recrutas inaptos, Nick Fury atravessou todo o aeroporta-aviões até o pátio. Com o seu onipresente charuto na boca.
- Comandante no pátio!
Fury pôde sentir o silêncio se estabelecer no recinto, coisa rara. Todos os agentes ali, e eram muitos, estavam formando uma espécie de círculo bagunçado em torno de algo no chão. Fury supôs que era o criminoso capturado.
- Me deixem passar! Vou acabar rogando uma praga pra que seu comandante um dia seja o Tony St...
Fury havia chegado e emudeceu instantaneamente. O charuto caiu de sua boca.
- Nick, achamos que esse aí é o...
- Eu sei quem é, Dum-Dum.
- Acho que alguém deveria contatar o Capitão América...
- Não podemos, isso vai destruir o Steve. Deixa que eu penso no que fazer. Aliás, ele estava trabalhando para o Caveira? E que roupa é essa?
- Ele era prisioneiro do Caveira e, baseado na roupa, acreditamos se tratar do famoso Fantasma Assassino que trabalhou durante a Guerra Fria e que povoava alguns relatos de prisioneiros. A descrição bate.
- Meu Deus, Dum-Dum, você sabe o que isso significa? Bucky acabou de voltar dos mortos...
- Por isso creio que dev...
- ... e eu acabo de ganhar mais um agente.
Nick Fury já estava botando seu cérebro em ação. Se dependesse dele, Bucky iria se tornar mais um herói a seu serviço.
E um dos grandes.