Michael Morbius está perdento a batalha contra a fera em que se transformou. E, mesmo com uma uma inesperada ajuda, a humanidade do Vampiro-Vivo parece condenada.
Agora, que todos os seus segredos caíram nas mãos de Blade e Peter Parker, é questão de tempo para que se encontre uma arma contra a criatura!
O que os dois não sabem, entretanto, é que tem mais "gente" caçando o Vampiro de Manhattan...
Capítulo IV
FOME SELVAGEM
Parte VII
PERDAS E DANOS
Argumento: Antonio "Armaged00m" Fernandes e Marcio Sampayo
Estória: Antonio "Armaged00m" Fernandes
A chave girou na fechadura.
Peter jurava que não moveu nenhum músculo nesse sentido. Mesmo após o clique, hesitou em empurrar a porta de seu próprio apartamento e atravessar o portal. A verdade é que um certo desconforto grudava seus pés no capacho. Não fazia a menor questão de dar de cara com aquelas ruínas, dignas de uma zona de guerra. O lugar já havia sido destruído tantas vezes, que nem mais se dava ao trabalho de arrumar a bagunça.
Um fim-de-semana desses - prometia-se, enquanto reunia coragem para enfiar o primeiro pé porta adentro - arrumaria alguns sacos e caixotes para recolher os cacos de sua vida e jogaria fora o fruto de meses de trabalho duro.
Fruto de muita dor de cabeça, juntando pistas e evidências, para solucionar os crimes que eram a matéria-prima de seu dia-a-dia no distrito.
Fruto de muito suor, perseguindo delinqüentes que tinham a metade de sua idade e corriam como lebres.
Fruto do risco de vida na mira de armas ansiosas por cuspir fogo e mandá-lo direto para o inferno...
Tudo isso sem contar os nós dos dedos, inchados de tanto socar vagabundos...
E para quê?
Para que todos os seus pertences acabassem em pedaços em uma lixeira qualquer.
— Então... Vai entrar ou não? — assustou-se com a voz que vinha de um vulto, parcialmente encoberto pelas sombras, sentado no que parecia ser um resto capenga de sofá...
Bairro do Harlem, Nova Iorque...
Ele chegou aqui vagando sem destino. O sol estava por nascer e precisava encontrar um abrigo para passar o dia. Não conseguira saciar-se por completo. Já há algum tempo, as ruas ficavam quase que completamente desertas ao cair da noite. O máximo que conseguira encontrar foi uma velha mendiga, anêmica e com muito pouco que pudesse ser tirado de suas veias. Surpreendera a coitada aqui mesmo, neste prédio em ruínas.
Sua sorte é que a fome amainava durante o dia.
A consciência de seus atos, por outro lado, despertava de seu torpor noturno para afogá-lo em culpa! Tinha ânsias de vômito ao lembrar-se do alimento repugnante que suas entranhas deveriam estavam digerindo nesse mesmo instante. Odiava-se pelos rostos que vinham atormentá-lo em seus pesadelos. Da maioria, ele nem mesmo conseguia lembrar-se, mas isso não os impedia de voltar...
A cada manhã...
Para cobrar suas vidas, roubadas violentamente.
Para cobrar justiça.
E, a cada dia, eram mais numerosos!
Era diferente quando sob o abraço da noite. Não sentia remorso ou misericórdia. E nem havia espaço para isso, com cada fibra de seu ser gritando por sangue! Nessas horas, qualquer vestígio de humanidade capitulava incondicionalmente, sob o domínio daquele apetite abjeto.
Todavia, quando o homem recuperava o lugar da besta saciada, era muito difícil agüentar a carga finalmente depositada sobre seus ombros. Ele prometia-se - como em todos os dias - resistir quando a noite chegasse. Jurava evitar matar novamente. Ele tinha que ser mais forte que aquele instinto sanguinário. Afinal, Michael Morbius era um homem, não um animal!
Mas sabia que - como em todas as noites - falharia miseravelmente, e o olhar cúmplice da lua novamente o encontraria espojado em sangue!
Súbito, ouviu um ruído na entrada do cortiço que escolhera como esconderijo.
Alguém mais tivera a mesma idéia de refugiar-se naquele pardieiro.
"Apartamento" de Peter Parker - Centro de Manhattan...
— Desculpe a bagunça, mas meu seguro não cobre destruição de bens e propriedades causados por criaturas que não existem! Quando disse que entraria em contato, eu não esperava que se convidasse à minha casa.
— Quando for renovar com a seguradora, escolha o contrato com cobertura total — respondeu o negro alto, que Peter conhecera na noite passada; o mesmo que também salvara sua vida. — Queria o quê? Que eu te procurasse no seu trabalho? — arrematou.
— Tá certo... Tá certo... Droga, olha só isso: as pestes destruíram quase tudo e... Ah, não! Merda, meus mangás! Todos espalhados, cheios de poeira, amassados e... — exclamou, recolhendo freneticamente as brochuras do chão. — ... Pisoteados!!!
— Viu? Eu te disse que os vampiros são seres muito cruéis. — zombou Blade.
— Vai sacanear tua turma, ô negão! Mas... Repara na ironia: nessa quebradeira toda, justo o bar ficou inteiro! Vê se pode! E aí, tá a fim de molhar a garganta? O que quer beber?
— Sangue!
Peter levou um tremendo susto com aquela voz cavernosa, reverberando a poucos centímetros de seu ouvido. Tão próxima que o detetive podia sentir o calor do hálito do outro em seu próprio pescoço.
Só então se deu conta que seu convidado
(Ai, meu Deus: nos livros e filmes não havia algum tipo de aviso para nunca convidar um vampiro para sua casa?)
não estava mais sentado no sofá. Materializara-se, como por mágica, praticamente colado ao detetive...
Peter ainda estava descobrindo os limites de sua própria agilidade, mas isso... Isso nem se comparava: a velocidade do Caçador de Vampiros era algo sobrenatural!
— Calma, Parker! — tranqüilizou Blade, exibindo um sorriso de dentes muito brancos, que fazia Peter indagar-se: "onde diabos estariam os tais caninos?!".
— É que eu não resisti. Você tinha que ter visto a cara que fez! — emendou Eric. — Mas não se preocupe: graças a engenhosidade de bom um amigo, já faz tempo que consegui contornar o problema da sede de sangue.
— Ei... Está me dizendo que uma estaca de madeira não é a única solução?
— Mais devagar, garoto! Não existem curas, apenas paliativos e... Ôpa! Já sei onde quer chegar. Pode esquecer! A única maneira de deter o tal Morbius é exterminando o infeliz!
— Qual é, Blade?! Você viu os diários do cara: ele não é responsável pelos seus atos! O Professor Morbius merece uma chance de...
— "Professor"... Sei! Escuta aqui, tira: eu não saio por aí metendo meu nariz preto onde não conheço! Eu te investiguei assim que suspeitei que estava metido nisso. Sei que Michael Morbius integrava o corpo docente da Universidade Empire State, na época em que você estudou lá. Ele foi seu professor, não é mesmo? Olha, sei que não vai sentir-se à vontade em mandar o cara pro inferno... Então, vá proteger e servir, enquanto eu faço o trabalho sujo, OK?
— Entenda, cara, temos o diário. Lá tem anotações detalhadas sobre a pesquisa dele. Podemos tentar desenvolver um...
— ... Antídoto? — completou o exterminador. — Mas isso não seria um Beleza?! Acorda, garoto... Não tô nem aí! Sou muito bom no meu trabalho, que você já viu qual é! Sou um soldado, não um cientista.
— E, por acaso, tá achando que eu só sei dar tiros e algemar maus-elementos? Se me investigou, sabe que, apesar de nunca ter me formado, eu era um aluno promissor! Tenho intimidade com práticas de laboratório. E... Esse seu amigo... O que te ajudou a vencer a necessidade de matar? Pelo que disse, ele deve ser uma espécie de gênio e...
— Whistler. O nome dele é Abrahan Whistler. Era médico, antes de ter a família chacinada por vampiros. Desde então, vive apenas para erradicar a raça dos malditos sanguessugas! Devo a ele minha vida e o propósito que ela ganhou.
— Viu só? É perfeito! Temos tudo o que precisamos... Ao menos para começar!
— Você não ouviu o que acabei de dizer? Se, nesse mundo, existe uma pessoa que tenha um ódio maior que o meu pelos vampiros, esse alguém é justamente o velho Abe! Ele não moveria um dedo para salvar a vida de um desses monstros!
— Mas Morbius não é como eles...
— Em certos aspectos, é até pior! Os clãs, ao menos, têm regras e disciplina. Seu "vampiro-vivo" não; é uma metralhadora giratória! Mas... Sabe, apesar de não concordar com essa sua idéia estúpida de poupar Morbius, reconheço que ela tem seus méritos: nem em sonhos somos páreo pra força daquela coisa. Por outro lado, se você e Whistler conseguirem curar seu "querido" professor, é só deixar o resto comigo!
— Mas, com os diabos, cara... O que é que você tem no lugar do cérebro? Titica de morcego?! Uma vez que ele não represente mais perigo, por que raios deveria ser morto?
— Pergunta isso a uma menina de apenas quatorze anos, trucidada brutalmente na Escócia. Eu estava lá, garoto. E não pude fazer nada pra impedir! O maldito queria que eu visse; parecia sentir prazer com o sofrimento da garota e mais ainda com minha impotência! E agora você vem me dizer que ele não é responsável?! Pro inferno, Parker!
— Lamento, Blade! E-eu... Eu já testemunhei o que ele deixa para trás. É revoltante, mas... Minha decisão continua a mesma: curado, a justiça poderia encarregar-se dele; não ficaria impune. Vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para deter Michael Morbius. Mas, se puder, preservando sua vida... Nem que, para isso, eu tenha que bater de frente com você!
— Uh! Corajoso, ele! Contudo, cada coisa a seu tempo, detetive. Não vou me preocupar antes da hora. Por enquanto, nossos objetivos caminham na mesma direção, que é neutralizar a transformação do nosso querido ganhador do Nobel. Vou contatar Whistler a pedir que venha para Nova Iorque o quanto antes.
— Faça isso. Eu vou dar um pulo no departamento para descobrir se surgiu alguma novidade.
— OK. Mas já vou avisando: trabalhar com o velho Whistler certamente não vai ser a experiência mais agradável do mundo...
Harlem...
Rochelle conhecia aquelas ruínas como a palma de sua mão. Costumava vir aqui para esconder-se de seu pai. Principalmente quando ele bebia...
Quando ele ficava daquele jeito...
Com os seus oito aninhos incompletos, ela ainda não havia tido a oportunidade de ver, nos olhos dos garotos, o mesmo brilho guloso que cintilava nos olhos do próprio pai. Não entendia direito o que significava aquilo...
Mas sabia que era algo que lhe desagradava e, sobretudo, que a amedrontava!
A garota morava a dois quarteirões deste lugar. Era um bairro pobre e, em certa medida, perigoso. Entretanto, ela tinha mais medo de ficar em casa, sozinha com o pai, quando a mãe saía para trabalhar. Medo das mão que, no lugar de protegê-la, como deveriam, tentavam tocar seu corpinho de uma maneira que a incomodava.
Era por isso que Rochelle vinha para cá, para este velho prédio abandonado, seu refúgio secreto! Sabia que uma mendiga costumava dormir aqui, durante a noite. Mas até lá ela já teria voltado para casa, bem a tempo de esperar a mãe na porta do modesto prédio em que moravam. A mulher ficaria feliz com a demonstração de afeto da filha, sem saber que a menina passara o dia inteiro fora, voltando apenas poucos minutos antes do retorno da mãe.
Hoje, entretanto, seria um dia diferente. Nele, a criança que, sem nem mesmo ter conhecimento disso, protegia sua inocência com escapadas diárias, iria encontrar alguém que tentava, como ela, preservar algo de seu próprio íntimo...
Sua sanidade... E humanidade!
Londres...
— Os resultados do "pente fino" no armazém das docas chegaram, senhor.
— E? — indagou Marius, sem sequer levantar os olhos dos documentos que examinava.
— Era um tipo de laboratório, senhor. Encontramos documentos e notas. Ao que parece, nosso "homem" é - ou era - um conhecido cientista. Após uma rigorosa triagem, nossos especialistas já têm uma boa idéia do trabalho que ele realizava lá... E de como isso o afetou.
— Esplêndido, Sr. Wes! Agora, fale-me sobre o assunto que você está evitando. Precisa aprender a controlar suas reações, Wes querido: está suando como um porco!
— É-é "O-que-anda-de-dia", senhor... E-e-ele encontrou aquele policial que MacCallister vigiava. Os dois juntos a-acabaram com uma unidade inteira dos nossos e...
— Aquele policial que ordenei que fosse morto, Sr. Wes? O mesmo que, a estas horas, não deveria passar de uma nota de obituário? E você vem me dizer que ele aliou-se a Blade, potencializando o problema que já representavam em separado?
— S-senhor, fizemos t-tudo que podíamos para evitar essa situação...
— Ao que parece, Wes querido, não foi o suficiente. Seu substituto vai precisar esmerar-se mais, quando vier a assumir sua posição.
— S-s-substituto, s-senhor?
— Foi o que eu disse, não foi? Mas... Pode fazer algo por mim, antes de abandonar suas funções, Wes querido?
— S-senhor... ?
— Não ofenda meus ouvidos com súplicas ou lamentos desagradáveis, meu querido...
Neste momento, o líder do clã, pela primeira vez, encarou o apavorado Wes:
— Apenas morra!
Rios vermelho pareciam correr nos olhos do sempre contido Marius. E, contrastando gritantemente com eles, as presas pontiagudas cintilavam dentro de uma boca que se escancarava além de qualquer limite natural...
Harlem...
Rochelle ficou muito assustada quando encontrou aquele "moço" jogado em um canto escuro do cortiço.
O prédio abandonado era muito velho e desgastado. Com o tempo, a maioria das paredes internas ruíra, assim como o piso entre o primeiro e o segundo andar, transformando o interior em um grande salão, entulhado de escombros e restos de móveis velhos.
Era para este lugar que ele vinha, todos os dias, depois de fugir de casa. Passava o dia brincando, entre aquelas paredes bambas, que teimavam em desafiar a força da gravidade.
O homem estava escondido em um lugar fora do alcance do sol, que entrava livre, pelas aberturas desprotegidas que já foram janelas. A menina achou que fosse um mendigo que, talvez doente, tenha retardado sua volta às ruas.
E ele não parecia mesmo bem. Tremia muito e, sozinho, resmungava palavras ininteligíveis. Rochelle sentiu medo, mas sua natural curiosidade infantil falou mais alto: aproximou-se e, antes que pudesse esboçar qualquer reação, uma mão ossuda e muito pálida agarrou seu bracinho.
— Sylvia... — sibilou aquilo
Londres...
Marius apertou um botão no interfone. Pouco depois, um indivíduo vestindo um terno escuro, de corte impecável, entrou no recinto, cuja única iluminação provinha da luz fraca de um abajur disposto sobre a mesa. O líder do clã anglo-americano saudou o recém-chegado:
— Giullio, meu querido, tenho ótimas notícias para você: acabo de promovê-lo! Não é maravilhoso?
— Obrigado, Senhor Marius! — exclamou o outro. — Nem sei como...
— Agradecer? — completou o homem de maneiras afetadas. — Pode demonstrar sua gratidão sendo mais eficiente que seu antecessor... E mandando retirar, de meu gabinete, o que sobrou dele! E, meu doce, seja rápido, sim? Antes que ele comece a feder...
— S-sem demora, senhor — assentiu Giullio, antes de sair, a fim de ordenar que algum serviçal executasse a limpeza.
Ainda espiou o corpo próximo à escrivaninha do lider. Chamar aquilo de corpo seria um eufemismo, dadas as lamentáveis condições em que se encontrava. Obviamente, por ter sobrado algo mais que cinzas, Wes era um simpatizante humano da causa vampírica, como o próprio Giullio. Esse era um dos momentos em que o executivo indagava-se sobre o quão acertada teria sido sua decisão em unir-se ao Clã, em troca de imunidade e poder, quando a raça vampira assumisse as rédeas do destino do planeta.
— Um momento, Giullio! — ordenou Marius. — Antes que se vá: está a par das investigações do falecido Sr. Wes, acerca do chamado "Vampiro de Manhattan"?
— Conheço cada detalhe do caso, senhor — respondeu Giullio, enquanto matutava: — "Isso! Demonstre segurança e competência e talvez você viva mais que o pobre pedaço de carne que serviu a esse monstro antes de você..."
— Ótimo! — exclamou Marius satisfeito. — Esse homem, Morbius, parece dominar uma ciência preciosa para a concretização de nossos objetivos. Se logrou converter-se em um vampiro... Um vampiro vivo... Não é demais acreditar que ele possa fazer-nos percorrer o caminho inverso. Imagine, por um instante, Giullio querido, legiões de filhos da noite caminhando sob a luz abrasadora do astro-rei, como apenas nossa mais persistente nêmesis, Blade, é capaz! Até onde poderíamos chegar, livres de uma de nossas únicas limitações e maior fraqueza?
Abriu uma brecha em uma pesada cortina negra. Uma nesga de sol da tarde londrina riscou a penumbra do gabinete. Aquele homem poderoso, cuja voz efeminada fazia tremer o mais destemido dos seus comandados, aproximou a mão lívida do raio de luz. Fingia tocar o facho luminoso, embora mantendo uma distância segura.
— Veja, belo Giullio, mesmo o sol tímido deste país, eternamente nublado, é fatal se tocar nossa pele. Ah, você não é como nós. Não é capaz de compreender uma eternidade vivida na escuridão... Entende que algo assim poderia poupar muitos anos em nossa meta de sujeição total da raça-humana?! Gado, é o que são! Comida que anda, mas apenas comida! Sonho com o dia em que serão colhidos, como fruta madura... A qualquer hora do dia! E Michael Morbius vai fazer esse dia chegar mais cedo!
Fechou a cortina. A segurança e conforto da penumbra parecia-lhe agora o que realmente era: uma prisao!
— Quero esse homem, Giullio! Mande chamar aqui Sufoco e Maytreia Jiji. Está na hora de ver se tudo o que investimos na preparação e treinamento de nossa elite de operativos não foi um monumental desperdício de tempo e recursos.
Harlem...
A febre aprisionava Michael em um turbilhão delirante, onde a realidade era apenas um pálido fragmento desbotado, perdida entre uma infinidade de imagens confusas e desconexas.
Era sempre assim, todas as manhãs. À margem da sanha assassina que o dominava a partir do crepúsculo, deixava levar-se por aquela letargia, povoada de fantasmas e rostos acusadores.
Sylvia Reynolds que, um dia, aceitou uma aliança e o sobrenome de Michael, era um desses espectros que lhe apontavam dedos descarnados. Uma camisola de cashmere vermelha cobria seu corpo putrefato. O homem-monstro achava curiosa a recorrência dessa cor em sua vida.
Sylvia não conseguia falar. E nem poderia, com aquele enorme rombo na garganta! Um bom naco de carne estava faltando. A área subtraída ia da base do queixo até os ombros. Mas Morbius sabia qual era o conteúdo das palavras que não saíam daqueles lábios mortos: perguntava se o marido adúltero apreciara o fruto podre da infidelidade. Se os momentos de prazer clandestino valeram a pena. Mais que tudo, queria saber porquê, depois de todas as injúrias que Michael já havia praticado contra seu casamento, ainda teve que voltar para tomar brutalmente a vida de alguém cujo único pecado foi amar aquele homem arrogante e sem caráter.
Ele não sabia o que responder, mas, mesmo assim, queria explicar-se. Agarrou o braço decomposto da mulher. Foi quando ouviu um grito...
Um grito infantil!
Súbito, aquelas imagens que povoavam seu cérebro perturbado, cederam lugar à realidade. Percebeu-se no interior parcamente iluminado do predio condenado, que elegera como refúgio. E deu-se conta de que não era a esposa morta que segurava, mas o frágil braço de uma criança negra. Uma menina. A coitadinha parecia muito assustada, mas não se debatia ou chorava: ao invés disso, olhava com muita atenção para o rosto de Morbius e seus traços singulares. Durante o dia, a pele da criatura ganhava alguma cor, embora ainda parecesse exageradamente pálida, em relação ao comum das pessoas. Da mesma forma, seus olhos regrediam a um tamanho mais próximo do natural, dispensada a necessidade de uma visão noturna.
Contudo, nem com muito boa vontade do observador, ele poderia passar por um ser humano normal.
Estava sem forças e febril, mas não poderia arriscar: soltou imediatamente a garota. Notou as manchas roxas que deixou no bracinho fino. Gritou com ela. Mandou que fosse embora.
E ela foi...
Apenas para retornar duas horas depois...
Trazia consigo uma sacola com alguns pacotes de biscoitos, latas de refrigerante e chocolates...
Aeroporto Internacional da Cidade de Nova Iorque...
— Estão olhando pra direção errada...
Blade e Peter esperavam o desembarque do vôo 731, proveniente da Escócia. Um passageiro especial deveria estar neste vôo: o mentor do primeiro e responsável pela logística da guerra contra os vampiros...
— Whistler... Nem precisa dizer que não veio nesse vôo, velho paranóico! — resmungou Eric.
— Desculpa por te fazer esperar à toa, garoto, mas não teria tido tempo de ver meus cabelos ficarem brancos se costumasse estar onde esperam que eu esteja... — respondeu o homem maduro, vestido como um motoqueiro. — Cheguei há pouco mais de duas horas, depois de fazer várias escalas para confundir eventuais perseguidores. Durante o tempo em que esperei aqui, pude certificar-me que a barra estava limpa — continuou. — É esse o cara? Não me parece grande coisa...
— Ele tá falando de mim? — rosnou Peter.
— Calma, Parker! Eu te disse que... — tentou remediar Blade.
— Pra quem tem um tal de um sexto sentido, ele parece meio por fora, não? — matraqueou Whistler, já a alguma distância, caminhando em direção à saída do aeroporto, sem esperar pelos outros. Parker notou que ele mancava de uma perna. Isso, no entanto, não o impediu de antipatizar instantaneamente com aquele sujeito desagradável. Voltou-se para o Caçador de Vampiros, indignado:
— Não acredito que, até sobre isso, você deu com a língua nos dentes!
Os dois já haviam alcançado o velho e, juntos, saiam do terminal.
— Blade não esconde segredos de mim, rapaz. — disparou Whistler. — E nem você deveria... Se quiser que eu ajude! Vai ter que me contar tudo o que eu quiser saber: até a cor da calcinha de sua namorada...
— Qualé, Blade? Você não espera que eu trabalhe nesse chiqueiro! — reclamou Whistler.
— Ei, péra lá... Essa múmia ranzinza tá falando da minha casa!
— Mas que droga, Parker! — exclamou Blade. — Eu te avisei sobre o quanto Whistler podia ser desagradável, mas a ajuda dele é imprescindível, se quisermos cortar as asas do teu querido professor. E quanto a você, Abe, fica frio, que já ralamos em muquifos bem piores que este...
— Tá... Tá... Mas faço questão de uma boa cama pra poder esticar meus velhos ossos — arrematou o velho caçador de vampiros.
— Pode ficar com o que sobrou da minha, vovô. Eu ia jogar fora mesmo...
— Todos entendidos, então — suspirou Eric, antes de continuar: — Vou precisar de um novo arsenal, Abe. Com exceção da katana, foi tudo pro brejo!
— Fica frio, garoto — começou Whistler. — Prata e alho não vão ser o diferencial dessa vez. Se duvidar, a principal arma de vocês vai acabar sendo uma seringa!
— Mas e aí, velho: o que tem a dizer sobre o material que te enviei pela internet? — indagou Blade.
— Coisa da pesada, garoto! Quase fundi a cuca tentando entender as notas do tal Morbius — respondeu Whistler. — Ah, falando nisso... o que achou da conexão segura que desenvolvi? Cem por cento à prova de hackers dentuços!
— Hunf! Como se qualquer guri, cheio de espinhas e calos nas mãos, não fosse capaz disso... — resmungou Peter.
— Eu ouvi isso, moço! — censurou o ex-médico. — Bom, o caso é que consegui entender uma boa parte da pesquisa desse Michael Morbius. Mas certas recombinações nas cadeias de DNA são um enigma até pra mim. Esse cara era um gênio! Estava anos-luz à frente da ciência médica contemporânea! E eu sou só um velho médico que teve a vida desgraçada por estas bestas sugadoras de sangue. É preciso um nível muito maior do que o meu pra levar isso avante.
— Então voltamos à estaca zero — resmungou Blade.
— Talvez não. O Dr. Curt Connors, que chefia o setor de perícia do departamento de polícia da cidade, também é uma autoridade em genética. Lembro que escreveu um livro sobre o assunto. Foi o que me levou a conversar com ele sobre as coisas que descobrimos através do diário e...
— Você o quê?! — explodiu Blade. — Seu idiota, tem idéia da besteira que fez?
— Ei, segura tua onda, meu camarada! — defendeu-se o policial. — Eu não falei nada que pudesse nos comprometer. Ficamos apenas na teoria, faz-de-conta, sabe como é? Só joguei verde, para conseguir algumas respostas. Além disso, o cara é do Departamento. Gente de confiança!
— Sei... Como o McCallister, certo, sabichão?
Peter sentiu-se desconfortável com a lembrança de Blade. Mas insistiu:
— Vai por mim: Connors é um outro caso... Eu confio nele!
— Você é quem sabe! — O Exterminador de Vampiros deu de ombros. — Eu trabalho nas sombras, à margem da lei... Já você, tem uma vida pública para manter!
Harlem...
Nos três últimos dias, Michael Morbius permaneceu exatamente no mesmo lugar. Quando prometeu-se resistir à sede de sangue, jamais imaginou que chegaria tão longe! Sabia, contudo, que sua vontade estava por um fio. Por duas noites, viveu uma aflição infernal. Sentia dores atrozes, enquanto seu abdômen corcoveava convulsivamente. Era como se aquele novo e desconhecido metabolismo tivesse convertido suas entranhas em um organismo independente: um parasita do qual o Michael era apenas um hospedeiro involuntário. Aquele animal faminto, dentro dele, exigia ser alimentado e, diante da inanição, tentava digerir o que tinha à mão: o próprio hospedeiro!
Hoje seria a terceira noite.
Para piorar, a menininha continuava a vir ao cortiço todos os dias. Trazia lanches, acreditando que sanduíches e doces seriam capazes de alimentar aquele "sem-teto" de aspecto famélico. A pobrezinha queria apenas ajudar, sem saber que só fazia aumentar sua agonia. Morbius desejava ardentemente que a garota se esquecesse dele e não voltasse mais. Entretanto, no dia seguinte, lá estava ela novamente.
Falava pelos cotovelos e, ainda que a "conversa" não passasse de um monólogo, ela parecia não se importar. Na falta de uma apresentação formal, chamava seu novo amigo de "Tio Jim". Tagarelava sobre tudo que lhe vinha a cabeça. Contou da mãe, que trabalhava no "Hambúrguer do Teddy", e chegou a comentar a ausência da velha mendiga, que vinha sempre se abrigar nestas ruínas. Era tão espevitada, a pequerrucha, que sugeriu, no meio de um assunto sem a menor relação com o fato, que ele devia pensar em tomar um banho. Ele teria rido, se o ato não fosse exibir aqueles seus dentes disformes e assustadores. O fato é que simples banhos não atenuariam o forte odor exalado pela liberação massiva da amônia, produzida em seu organismo alterado.
E, um dia, com a maior inocência, Rochelle falou também sobre o pai e a coisa feia que ele tentava fazer, quando sozinho com ela...
Michael ficaria revoltado... Caso se importasse. Mas o costumeiro torpor diurno o deixava apático e distante.
Apesar disso, ele sentia uma secreta satisfação com aquelas visitas diárias. Era um contato humano, afinal. Nem lembrava mais há quanto tempo estivera tão perto de uma pessoa sem vê-la como comida.
Também agradecia aos céus pelo fato de Rochelle, invariavelmente, despedir-se antes do fim da tarde. Ele sabia que ela tinha que estar em casa antes da mãe chegar. Nem queria pensar no que poderia acontecer se ela permanecesse por mais tempo...
Mas imaginava...
Lembrou-se da noite passada, quando o sol escondeu-se para que a lua assumisse, orgulhosa, seu posto de senhora do firmamento. Sentiu, como sempre acontecia a essa mesma hora, sua sensibilidade aumentando em proporções absurdas! Os sons da noite pareciam gritar diretamente em seus tímpanos. Ouviu, de sob as ruas, os ratos guinchando nos esgotos e um despertador tocando em um apartamento distante. Contudo, um som singular sobressaiu-se ao demais: as batidas cadenciadas de um coração, a dois quarteirões dali. Era ensurdecedor. Estabeleceu imediatamente a sintonia: podia não só acompanhar o caminho do sangue, no interior das veias e artérias, como também sentir seu delicioso aroma. Antecipava o sabor... Fresco e revigorante!
Ela salivava, desejoso de provar aquilo que, para ele, era a mais saborosa das iguarias. A baba escorria pelo queixo e já deslizava pelo pescoço nodoso...
Até que suas narinas dilatadas identificaram o cheiro do corpo onde corria fartamente aquele precioso fluído...
Um cheiro conhecido...
O da pequena Rochelle!
E, nauseado pelo horror a si mesmo, vomitou copiosamente...
Ainda que as tripas murchas e vazias apenas pudessem expelir a própria bílis!
— Conseguiu livrar-se dela? — perguntou Blade.
Peter coçou a cabeça, suspirou e respondeu:
— Tive que mentir miseravelmente... E eu odeio enganar minha noiva! Disse que um informante estava aqui comigo, dando a dica de um "serviço".
— E ela "engoliu"?
— Bem, como funcionária da corregedoria, ela achou muito irregular, mas sabe que nós tiras temos que lançar mão desses artifícios para conseguir certas informações. Concordou em não entrar, para não pôr em risco a identidade do alcagüete...
— É essa a desculpa que você costuma usar quando quer pular a cerca? — gritou Whistler da cozinha, provisoriamente convertida em laboratório.
— Ele sempre que ser tão detestável assim? grunhiu o detetive.
— Na verdade, não. Mas ele trabalha muito melhor quando está sacaneando alguém. Basta que você ajude-o nas pesquisas e não lhe dê ouvidos.
— Cê tá adorando isso, né? Mas deixa pra lá... Sabe o que me intriga? — perguntou Peter — Há três dias que não ocorre um único crime que corresponda ao modus operandis atribuído ao "Vampiro de Manhattan". Será que Morbius saiu da cidade e foi agir em outro lugar? Pelo que você contou, ele já fez isso antes, seguindo uma rota sangrenta por toda a Europa e, de lá, aos Estados Unidos.
— Essa é uma possibilidade que não podemos descartar, mas, embora eu não faça idéia do porquê dele estar na encolha, meu palpite é de que o maldito não foi a parte alguma. Escuta, eu posso não ter um sexto sentido como o seu, mas meu instinto diz que ele está bem perto... Tão perto que dá pra sentir aquele fedor horroroso dele!
Nisso, Whistler apareceu, de avental, retirando umas luvas de borracha:
— E aí, seu puliça, já acabou o recreio? Cadê o resultado da análise que te pedi, preguiçoso? Já quebrou o envelope fosfolipídico para a extração das glicoproteínas? A gp120 você pode descartar; estou mais interessado no componente gp41 [1]... E, Parker, vou precisar desse resultado nos próximos quinze minutos!
— Tá saindo, coroa, dá um tempinho só... Cruzes: parece o Jameson!
— Eric, dá um doce pro rapaz não chorar! — cacarejou Whistler. — Ah... Vamos precisar de mais amostras de tecido contaminado das vítimas. O que trouxe não deu nem pro cheiro e eram nossa única fonte do DNA do Morbius.
— Caramba! — reclamou Peter. — Já foi uma barra manchar meu lenço com o sangue de uma das últimas vítimas, enquanto o legista não estava prestando atenção. Além de ilegal, isso é nojento! Porque não tira do Blade? O Morb vive rasgando ele...
— Não dá, engraçadinho — disse Eric. — Quando meus ferimentos regeneram-se, qualquer traço de agentes patogênicos ou estranhos ao meu organismo são eliminados.
— Bem... De volta ao necrotério, então... — resignou-se o detetive.
Harlem...
Esta manhã a pirralha achou de trazer uma cachorro de rua consigo. Enquanto tagarelava sem parar, deixou escapar que o pulguento deu de segui-la, depois que ela jogou um pedaço de sanduíche para ele. Era um animal de pequeno porte; um vira-latas de rua, sarnento e fedido, cujo pêlo, embora fosse bem difícil de acreditar, um dia já fora branco. Depois de praticamente embrulhar o bicho num laço de fita cor-de-rosa, a título de coleira, a garota, sabe-se lá por que cargas d'água, achou-o parecido com a Lassie e decidiu batizá-lo assim, dando pouca importância ao fato de que o animal fosse macho.
O cão só desistiu de tentar livrar-se da fita quando farejou Morbius. Danou de rosnar para ele e não parou mais. A cada latido esganiçado, dava dois passos para trás. Terminou por soltar um ganido agudo e correu a esconder-se atrás de uma pilha de quinquilharias.
Rochelle ficou muito zangada com o bicho. Foi até onde ele ocultara-se e, enquanto batia o pezinho no chão, dizia apontando para o pobre "Lassie":
— Cachorro bobo! Tio Jim é amigo! Entendeu? A - MI - GO! Vai lá fazer festa pra ele, anda...
Contudo, não havia meio de tirar o animal do lugar. A menina mostrava-se visivelmente decepcionada. Afinal, Lassie apegara-se tão fácil a ela, que ficara certa de que o mesmo se daria com Tio Jim. Que vergonha!
Despediu-se de Michael antes do horário costumeiro, alegando que a mãe chegaria mais cedo do Hambúrguer do Teddy. Iam ao cinema. Rochelle estava exultante.
Partiu logo em seguida.
Morbius, assim como estava, permaneceu. Sequer olhara para a garota durante todo o tempo em que ele permanecera ali. É possível que nem tivesse dado conta da presença dela...
Aquela figura esquálida, de olhos revirados, coberta por trapos e jogada em um canto escuro, estava totalmente absorta na ebulição em suas entranhas...
A coisa que o devorava por dentro estava especialmente faminta hoje...
Encolhido na sua toca improvisada, o emperiquitado cachorro com nome de cadela começou a uivar...
Caras, não sei se vai funcionar, mas...
— "Mas" o que, velho? — exclamou Blade. — Desembucha!
— Bom, cheguei a algumas conclusões... — e, após perceber um olhar de reprovação, por parte do dono do apartamento, retificou: — Quer dizer, nós chegamos. Aliás, se não fosse o auxílio do jovem prodígio aqui, confesso que ainda estaria tateando no escuro, ou tentando a técnica fracassada de inserir um gene-suicida no genoma retroviral...
— Ora, o que é isso, doutor? Eu só dei uma ajudazinha...
— Calaboca, guri! Eu não gosto de rasgar seda, mas quando faço um elogio, pode ter certeza de que ele é merecido! Jamais teríamos chegado a lugar algum se você não tivesse desenvolvido o algorítmo para o cálculo da concentração de betaquimiocinas [2]!
— Peraí, Peraí... "Doutor"... "Prodígio"?! O que é que tá acontecendo aqui? E desde quando vocês dois viraram amiguinhos do peito? O que vem depois disso? Vai adotar o Parker, velho?
— Modera o ciúme, Blade... Você ainda é o meu garoto! — riu Whistler. — Mas precisava ver, homem: o moleque tem tutano! Devia estar em uma universidade, não trocando tiros por aí!
— Bom, dá pra voltarmos ao que interessa? — reclamou matador de vampiros. — Não preciso lembrá-los que ainda temos um monstro homicida para conter!
— Ok — concordou o velho médico. — Sem mais firulas, vamos ao que descobrimos: o fato é que Michael Morbius não descobriu a cura da AIDS. Nem mesmo chegou perto, embora, em sua loucura, estivesse certo que sim. Trocando em miúdos, o bom professor estava convencido de que a chave para debelar a doença estava em uma espécie rara de morcegos, até então desconhecida, que ele descobriu em suas andanças pelos Balcãs. Suas experiências aparentemente demonstravam que o sistema imunológico desses animais era capaz de impor resistência às tentativas de avanço do HIV. Ao prosseguir em seus estudos, ele constatou que não era o sistema imunológico dos seus quirópteros o responsável pela proeza de fazer frente à AIDS, mas um simples vírus, do qual os bichos eram portadores. Um retrovírus, na verdade, como o próprio HIV. Arrogante como era, batizou esse novo agente virótico com seu próprio nome: Morbius-Vírus ou MV1. Sua idéia era usar a técnica do vírus atenuado, que consistiria em subtrair os genes responsáveis pela patogenicidade do MV1, para atuarem como vetores vivos ou veículos de vacinação contra o HIV. Depois de várias tentativas infrutíferas, que consumiram toda a sua fortuna, conseguiu chegar à variante MV23, mas aí os sintomas avançados da doença já vinham prejudicando seu trabalho. Percebeu que já não tinha muito tempo de vida. Diante disso e, certamente, com o julgamento comprometido, resolveu experimentar o MV23 em si mesmo!
— E... ? — fez Blade, esperando pela conclusão do assunto.
— Se Michael Morbius já não estivesse com o raciocínio debilitado... — continuou Peter Parker, no lugar de Whistler. — Teria levado em conta que os retrovírus são extremamente mutáveis, razão pela qual a comunidade científica ainda não logrou encontrar uma cura definitiva para a AIDS, já que o HIV vive a evoluir em uma enorme gama de subtipos e, até mesmo, combinações deles.
— Não enrola, Parker! Onde foi que o monstrengo meteu os pés pelas mãos?
— Se você não me interromper de novo... Bom, os retrovirus tem uma enzima muito sacana chamada transcriptase reversa. Essa merdinha é responsável pelo vírus ir acumulando mutações, gerando uma enorme variabilidade genética. Pois é, graças a isso, o MV23 já vinha de fábrica com o molde de RNA dos morcegos-vampiros. Daí, quando Morbius inoculou-se com ele, o safado fez a festa nas células do doido, assimilou o HIV e começou a recombinar-se com o DNA ali presente. Foi aí que a merda fedeu!
— Sei. Ele virou o próprio bicho-papão e começou a comer gente... — arrematou Blade.
— Bingo! — confirmou Whistler.
— Tá. Muito instrutivo, esse palavrório todo, mas... e aí? No que isso ajuda a gente a dar um basta aos vôos desse morcego humano?
— Calma, Eric. Aí é que entram as nossas experiências aqui, no nosso desequipado laboratório doméstico Parker! — anunciou o velho. — Infelizmente, é impossível reverter a mutação de Morbius. Pelo menos, com os limitados recursos de que dispomos. Mas encontrei um meio de neutralizá-lo, ainda que provisoriamente. Apesar do nosso Peter aqui não ter gostado muito, é a única alternativa que fomos capazes de encontrar...
— E estão esperando o que pra abrir o jogo comigo? — interrompeu novamente o impaciente o exterminador de monstros.
— Whistler acha que, se a criatura for contaminada massivamente com as variantes mais agressivas do HIV, forçaríamos o MV23 a uma competição pelo domínio dos receptores celulares de betaquimiocinas... Resultando num colapso bioquímico!
— E qual o problema? Não é justamente o que queremos: queimar os fusíveis do carniceiro?
— Tem complicações, Blade: Michael Morbius pode morrer no processo, mas acho que você não se importaria muito com isso e, na verdade, nem eu. — confessou Whistler, com sinceridade. — Mas, se ele sobreviver, não vai ficar nocauteado por muito tempo. O MV23 é muito mais eficiente que o HIV, mesmo nas mutações mais letais deste último. Logo ele vai voltar a ser dominante e revigorar o metabolismo em choque do vampiro-vivo!
— E tem outra coisa! — interviu Peter. — Vamos estar lidando com o vírus da AIDS, cara... In natura! Coisa da pesada! Não sei se vampiros, como você, são imunes a essa coisa, mas eu certamente não sou. Um descuido e vou estar morto em vida!
Rochelle não foi ao cinema com sua mãe, como esperava. Mamãe ligou do serviço, avisando que teria de fazer hora extra. Era a primeira vez que isso acontecia. Só em pensar que deveria passara noite inteira sozinha com o pai, seu coraçãozinho acelerou apavorado. Correu para fora de casa, deixando a porta aberta atrás de si. Na rua decidiu-se pelo único lugar onde poderia ir:
O cortiço e seu amigo Tio Jim.
Ao chegar lá teve uma surpresa: encontrou Tio Jim abraçado com cachorro. Inocentemente, ficou apenas feliz com o que deveria achar estranho.
"Que legal! Eles finalmente viraram amigos" - pensou.
Correu na direção deles.
Nesse momento, a criatura levantou a cabeça e a criança viu-se encarada por olhos injetados. Toda a metade inferior de seu rosto ossudo estava tingida de vermelho, em um contraste aberrante com a lividez cadavérica. Tinha estado com o rosto mergulhado no peito rasgado do cão, sorvendo o sangue que fluía da cavidade, bombeado pelo coração ainda em funcionamento.
Por um instante, Rochelle ficou congelada onde estava. Não conseguia entender o que significava aquilo. Só sentia seu próprio coração bater, como se quisesse romper seu peito...
E percebera, também, o medo...
Muito medo...
Medo do Tio Jim...
Como tinha de seu pai.
O mesmo medo que a congelou, estabacada, devolveu-lhe os movimentos e ela apressou-se em fugir dali, o mais rápido que suas pequenas pernas permitiam.
Não foi longe...
Uma mão firme segurou-a pelos ombros. Foi levantada do chão e comprimida contra um corpo frio. Pensou que fosse Tio Jim, mas estava enganada. Viu um outro homem ao lado do que a mantinha segura. Torceu o pescoço para olhar seu captor. Seus traços eram orientais. E ele era totalmente albino. Possuía longos cabelos, tão descoloridos quanto sua pele. Vestia-se totalmente de branco, numa bizarra combinação, arrematando com um pesado casaco felpudo. Parecia ser bem frágil, embora a força com que seu braço apertava a garota o desmentisse.
O segundo homem era extraordinariamente avantajado. Músculos bem desenvolvidos estufavam a pele negra. A menina, apesar de sua desconfortável posição, arregalou os olhos ao notar que o grandalhão tinha arame farpado enrolados pelo corpo todo. Os cravos, apertados contra a pele, penetravam e rasgavam a carne. As espirais aramadas era tudo o que "vestia", o que eqüivaleria a dizer que estava completamente nu.
— Não estava pensando em guardar essa coisinha apetitosa só pra você, não é, animal? — vociferou o gigante negro, ao passo que cheirava demorada e gulosamente a garota, nos braços do outro.
Falava com Tio Jim, que levantara-se titubeante de seu canto. Equilibrava-se com dificuldades, diante deles, encarando seus captores por detrás de enlouquecidos olhos vermelhos...
E babando sangue...
— É este pobre diabo que assustou tanto o clã? — escarneceu. — O que acha, monge, não é um desperdício do nosso precioso tempo terem nos enviado para esmagar essa barata?
O albino apenas sorriu. Um sorriso gelado. Apertou ainda mais Rochelle, que tossiu.
— Desculpe o meu amigo. Ele não fala. — explicou o negro. — Fez voto de silêncio, sabe, doutor... Você é doutor, não é? Ao menos foi o que nos disseram. Também disseram que você rasgou muitos dos nossos. Não que eu lamente a perda daquela ralé. Contudo, gostaria de ver tentar o mesmo conosco... Sobretudo, nesse estado miserável em que se encontra, enfraquecido e faminto!
Morbius rosnou. A razão já abandonara aqueles olhos faiscantes, que demonstravam apenas um instinto primal. Seu território havia sido invadido. Mais: tomaram algo que lhe pertencia! Seria difícil dizer se a criatura queria tirar a garota deles para protegê-la ou para alimentar-se dela! Não importava...
Fosse como fosse, em sua percepção distorcida, Rochelle pertencia a ele!
— É isso o que quer? A garota? — repetiu o outro. — Jiji, pode, por favor, devolver a pirralha para ele!
A menina chorava baixinho, tentando conter os soluços. Todos ali lhe davam muito medo. Sobretudo, aquele que representava sua única chance de salvação: Tio Jim. Os olhos injetados dele encontraram com os de Rochelle, que eram grandes e brilhantes... Cheios de vida. Vida que se apagou, abruptamente, quando o albino torceu-lhe o pescoço violentamente, antes de atirar o corpo desconjuntado da criança aos pés de Morbius.
Naquele exato momento, sendo encarado por aquelas pupilas sem vida, o que quer que ainda persistisse de humano, dentro da coisa, deixou-se cometer um suicídio psicológico...
Soltou a fera, irracional e sanguinária, no quintal do mundo...
Não se importava mais!
Mesmo dia e lugar, pouco antes do amanhecer...
Blade despertou sentindo muito frio e com um estranho gosto de ferrugem na boca. Demorou um pouco para organizar as coisas em sua cabeça. Lembrava de terem encontrado este lugar, depois de procurarem a noite toda, guiados por seus olfato e audição e pelo "sexto-sentido" de Parker.
Houve luta, sabia. Lembrava do monstro sobre ele, tentando destroçar sua garganta, mesmo cravado pela katana e espetado por todo o seu arsenal de lâminas. Foi justo nesse momento que Peter, aproveitando o momento em que a criatura ocupava-se em acabar com Caça-Vampiros, cravou a enorme seringa na jugular de Morbius.
A besta caiu imediatamente ao chão, vítima de violentas convulsões.
Eric levantara-se, ajeitando o sobretudo e aproximara-se do corpo caído do vampiro-vivo, confiante.
— Isso é por aquela garota, na Escócia... — grunhiu, antes de desferir um chute no rosto de Morbius.
— Ei, cara, vai com calma... — pediu Peter. — Não é nada digno chutar cachorro morto!
— Não se mete, tira! E isso... Isso é por...
Mas Blade não chegou a terminar a frase...
Sem ninguém esperar, Morbius soltou um suspiro longo e sôfrego, enquanto revirava os olhos. Totalmente inconsciente do mundo ao seu redor, por puro instinto, a criatura agarrou a perna que se preparava para chutá-lo, uma segunda vez. As garras afiadas penetraram fundo na carne, rasgando músculos e rompendo artérias.
Ainda caído e à mercê dos espasmos, a fera inumana livrou-se de sua presa, com um movimento brusco, atirando-o longe, antes de imobilizar-se para não mais se mexer.
Foi nesse instante que o Exterminador de bestas profanas quedou desacordado. Não sabia o quanto de tempo permaneceu assim, mas julgava que não muito.
Tentou levantar-se, com dificuldade, apoiando-se em uma mesa ou algo parecido, ao alcance da mão. Sua visão ainda estava turva e percebia apenas vultos difusos.
Identificou Parker, pela cor azul da camisa dele, e ensaiou um passo em sua direção...
Com a visão mais nítida, percebeu que o policial, lívido e visivelmente abalado, olhava alternadamente para sua direção e também para alguma outra coisa, que Morbius segurava firmemente, apesar de desfalecido.
O passo começado evoluiu em um movimento trôpego, que buscou apoio do pé para completar-se...
E só então, quando o impulso do corpo não encontrou a sustentação esperada, é que sua visão, já não tão turva, alcançou o lugar para onde Peter estivera olhando. E, dali, Blade não conseguiu mais desgrudar o olhar...
Mesmo que sua mente ainda não tivesse registrado conscientemente o que os olhos já sabiam...
Com o canto dos olhos — "Visão periférica... É como chamam isso?" — pensou, enquanto via o Policial novaiorquino, que aprendeu a respeitar em combate, correr em sua direção. Como se quisesse...
Socorrê-lo... ?
A confortadora insensibildade, provocada pelo choque, já estava passando e a dor lacerante cobrava ser notada...
E só quando seu corpo desabou pesadamente no chão...
Só então, o cérebro do caçador de Vampiros...
Já no umbral da inconsciência...
Reconheceu tardiamente a visão da própria perna direita, decepada logo abaixo do joelho, segura nas garras aduncas da coisa que foi Michael Morbius...
Depois disso, a última coisa que viu foi Parker, já sobre ele, dizendo alguma coisa enquanto o sacudia. E deixou, agradecido, levar-se pela piedosa escuridão, que vinha libertá-lo daquele doloroso pesadelo.
E tudo o mais foi embora, escorrendo pelas fronteiras do não ser...
Escorrendo...
Como o sangue, que jorrava do toco decepado, tingindo de rubro a tudo que alcançava...
Encharcando as roupas e respingando na face de um desesperado Peter Parker, cujos apelos inúteis assomavam apenas com ouvidos que já não o escutavam!
NÃO PERCA A PERTURBADORA SEQÜÊNCIA EM
PETER PARKER: NYPD #10!!!
Notas do Autor:
[1]Elementos da genética e dos processos contaminatórios dos retrovírus, categoria na qual está incluso o HIV.
[2] Idem.
Aventura inédita!